A fronteira Brasil-Paraguai

É relativamente comum a tendência de se generalizar algo a partir de uma experiência particular. Por exemplo: nos referirmos à fronteira entre o Brasil e o Paraguai, a partir do nosso conhecimento de Foz do Iguaçu e de Ciudad del Este. Em termos de geografia, trata-se do primeiro e certamente o mais importante ponto de contato entre ambos os países.

Da região da Tríplice Fronteira até a região de Guaíra (Brasil)/Salto del Guairá (Paraguai), a maior parte do limite entre ambos os países é formada pelo lago de Itaipu que, por sua vez, é parte do Rio Paraná. De Guaíra até a nascente do rio Apa, são aproximadamente 540 quilômetros de fronteira seca entre o estado do Mato Grosso do Sul e o Paraguai. O Apa seguirá como limite até sua foz no rio Paraguai, que também divide a maior parte da porção fronteiriça entre ambos os países.

É bem verdade que quem conhece a Tríplice Fronteira pode afirmar que conhece a mais importante região fronteiriça entre ambos os países por vários motivos, sendo o principal deles a circulação de pessoas e de mercadorias. Ainda assim, a Tríplice Fronteira é apenas um ponto de contato entre o Brasil e o Paraguai, fixado sobre um território contíguo que ultrapassa a marca de 1.000 quilômetros. Há variações significativas na fronteira Brasil-Paraguai – rios, represa, fronteira seca – que denotam o fato de que conhecer a Tríplice Fronteira não é o mesmo que conhecer a fronteira Brasil-Paraguai.

Por: Micael Alvino da Silva e Marcelino Teixeira Lisboa. Publicado originalmente em Revista 100 Fronteiras, edição de janeiro de 2020.

É segunda ponte ou não é?

As pontes e a fronteira Brasil-Paraguai

Em 2019 iniciou-se a construção da Ponte da Integração, que ligará as cidades de Foz do Iguaçu e Presidente Franco, na Tríplice Fronteira. Tem sido comum encontrar na mídia ou ouvir em conversas a denominação de “Segunda Ponte” a essa obra. Mas, será que isso está correto?

Quem mora na Tríplice Fronteira sabe que essa não é a segunda ponte por aqui, mas a terceira. A mais antiga é a Ponte da Amizade, inaugurada em 1965, ligando Ciudad del Este e Foz do Iguaçu. A segunda ponte construída na região é a Ponte Tancredo Neves, também conhecida como Ponte da Fraternidade, que liga a cidade brasileira a Puerto Iguazú, na Argentina, inaugurada em 1985.

Em alguns veículos da mídia é possível encontrar manchetes nas quais consta que a obra em construção é a segunda ponte entre o Brasil e o Paraguai. Entretanto, também não é. O jornalista Lúcio Horta, em sua pesquisa na pós-graduação em Relações Internacionais que cursa na UNILA, levantou informações sobre a existência de uma ponte sobre o rio Apa, ligando a cidade paraguaia de Bella Vista Norte e o município brasileiro de Bela Vista. Comumente, essa estrutura bastante modesta, se comparada com a Ponte da Amizade, é chamada apenas de Ponte Internacional e foi inaugurada em 1971. Então, a nova ponte entre Presidente Franco e Foz do Iguaçu será a terceira ponte ligando o Brasil e o Paraguai e não a segunda.

Outra ponte importante nas relações Brasil/Paraguai é a Ponte Ayrton Senna. No entanto, apesar de facilitar o acesso entre as cidades de Salto del Guairá, no Paraguai, e Guaíra no Brasil, essa ponte liga as cidades brasileiras de Guaíra e Mundo Novo. Cabe lembrar que a fronteira entre Mundo Novo e Salto del Guairá é seca.

Sendo assim, é correto dizer que a nova ponte é a segunda ponte conectando Brasil e Paraguai na Tríplice Fronteira ou então a segunda ponte entre Brasil e Paraguai no rio Paraná. No final das contas, o importante é saber que nesse século XXI está em andamento mais uma obra que une brasileiros e paraguaios, enquanto que em outras fronteiras do mundo constroem-se muros que separam.

Por: Prof. Marcelino Teixeira Lisboa

Originalmente publicado em Revista 100 Fronteiras, dezembro de 2019.

Como fazer pesquisa em RI?

A pergunta é pertinente para todo estudante de graduação e candidatos a mestrado em Relações Internacionais. Se é o seu caso, leia o artigo do Prof. Dr. Marcelino Teixeira Lisboa, do Grupo Tríplice Fronteira.

Resumo:

O texto tem o intuito de apresentar as ideias básicas para formulação de desenhos de pesquisa, com foco em estudantes em nível de graduação. Desenvolve-se a ideia de que um desenho de pesquisa deve ocupar-se inicialmente, de definir um objeto, uma pergunta, definir uma teoria a ser utilizada, elaborar uma hipótese, tratar das fontes e escolher o método adequado. Entende- se que esses sejam os passos iniciais fundamentais que devem ser seguidos pelos pesquisadores que realizam seu primeiro trabalho de maior envergadura, como uma monografia de conclusão de graduação.

Texto completo aqui

A Tríplice Fronteira como Região

Compreender a Tríplice Fronteira é um desafio sobre o qual os pesquisadores do Grupo de Pesquisa têm se debruçado. Como resultado parcial, foi publicado no periódico Cadernos do PROLAM/USP, um artigo sobre as dimensões locais e globais da região.

RESUMO: este artigo propõe a compreensão da Tríplice Fronteira Argentina-Brasil-Paraguai (TF) como região internacional, em duas dimensões: local e global. A primeira diz respeito à articulação do território fronteiriço compartilhado pelos três Estados por meio de infraestrutura e fluxos de pessoas e mercadorias, criando uma dinâmica local de característica internacional. A segunda refere-se à contemporânea menção da TF como região relacionada aos novos temas da agenda internacional, devido aos desdobramentos dos fluxos de pessoas e mercadorias. O artigo vale-se de uma reflexão conceitual, de dados históricos e de uma contextualização do caráter dos fluxos verificados em consonância com a agenda internacional.

Artigo completo

Velhas e novas vinculações: o atual cenário político e o nexo Tríplice Fronteira-Terrorismo

Especialista da Universidade de São Paulo fará palestra desta quarta-feira (11), às 9 horas no espaço Florestan Fernandes 3, no PTI. Evento é gratuito e aberto à comunidade. Inscrições vão até terça-feira (10)

No dia em que o ataque ao World Trade Center completará 18 anos, nesta quarta-feira (11), um debate em Foz do Iguaçu (PR) vai abordar as conexões feitas entre a Tríplice Fronteira e o terrorismo internacional. O assunto, que ficou em evidência após a queda das Torres Gêmeas, voltou à tona desde 2018 com diversas ações focadas no Hezbollah. 

Com o tema “Velhas e novas vinculações: o atual cenário político atual e o nexo Tríplice Fronteira-Terrorismo”, o evento será às 9 horas no Espaço Florestan Fernandes 3, no Parque Tecnológico Itaipu (PTI). A iniciativa é do Grupo Tríplice Fronteira e Relações Internacionais, da Universidade da Integração Latino-Americana (Unila), em parceria com o Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP).

O encontro é gratuito e aberto ao público externo, mas é preciso se inscrever pelo formulário, disponível aqui. As inscrições devem ser feitas impreterivelmente até terça-feira (10) – incluindo àquelas dos veículos de imprensa interessados na cobertura.

Discussão emergente

A proposta do debate é ampliar o conhecimento sobre a temática, tratado no âmbito dos governos. “É importante trazer o debate para a região da Tríplice Fronteira e, felizmente hoje, podemos fazer isso por meio da atividade de pesquisa desenvolvida na Unila”, afirmou o Professor Doutor Micael Alvino da Silva, docente do Mestrado em Relações Internacionais (PPGRI) da Unila e especialista no assunto. 

O professor fará a mediação do debate após a palestra, que será proferida pela Profa.Dra.Isabelle Christine Somma de Castro, pós-doutoranda do Departamento de Ciência Política da USP. Na universidade, ela coordena o projeto “A conexão entre o terrorismo internacional e a Tríplice Fronteira durante as administrações George W. Bush e Barack Obama (2001-2016)”. Desde 2018, o objeto também é pesquisado pela especialista na Universidade de Columbia, nos  Estados Unidos.

“A discussão sobre a suposta existência de atividade terrorista na Tríplice Fronteira transcende os limites das fronteiras dos três países que a compõem”, explicou Isabelle.  

Segundo a professora, as mudanças políticas que ocorreram nos últimos anos no governo norte-americano e, consequentemente, no Oriente Médio, influenciam e ainda vão influenciar diretamente as políticas em relação à região. “Para além de observadores, a comunidade local e, especialmente a acadêmica, deve participar ativamente do processo de desconstrução de narrativas que distorcem ou desviam o entendimento das reais necessidades e dinâmicas da região”, concluiu.

11 de setembro

O debate ocorre coincidentemente no dia 11 de setembro, data que ficou marcada e mudou a história dos Estados Unidos e das Relações Internacionais. Em 2001, terroristas da Al-Qaeda atingiram o World Trade Center e parte do Pentágono. 

Como parte da reação internacional, o então governo de George W. Bush anunciou a Guerra ao Terror. Naquele contexto, a região da Tríplice Fronteira foi acusada pelos Estados Unidos de servir como apoio financeiro a grupos terroristas. “Ainda que setores do próprio governo americano tenham declarado desde 2005 a ausência de atividades de terrorismo [na região], desde 2018 a temática ficou novamente em evidência e com considerável força política”, destacou Micael Alvino da Silva.

De acordo com o professor, a decisão política da Argentina e do Paraguai de considerar o grupo libanês Hezbollah como organização terrorista é uma consequência desta nova fase no nexo entre terrorismo e Tríplice Fronteira. Daí a importância de ampliar a sua compreensão e debatê-la com a sociedade. 

Por: Assessoria de Imprensa/Unila

Os imigrantes em Foz do Iguaçu

Na semana passada tive uma agradável conversa com estudantes de Jornalismo que buscavam informações sobre os imigrantes em Foz do Iguaçu. Destaquei três questões que me parecem cruciais e as compartilho a seguir.

Primeiro, é importante distinguirmos quem é o estrangeiro e quem é o imigrante. Estrangeiro é aquele de nacionalidade diferente da nossa e que pode ser residente ou apenas um visitante no território nacional. O imigrante é um estrangeiro, mas que tem como objetivo a fixação no outro território por questões de trabalho principalmente. Os filhos dos imigrantes que nascerem no Brasil, por exemplo, não serão estrangeiros ou imigrantes.

Segundo, em Foz do Iguaçu não é correto se referir à “colônia” para designar grupos específicos como árabes e chineses, por exemplo. Não há e nunca houve colônia de estrangeiros na história do município. Houve uma Colônia Militar de 1889 a 1914, que foi uma estratégia brasileira de ocupação do território. Como meta que foi parcialmente cumprida, alguns imigrantes, como alemães e italianos, de fato foram atraídos. Eram colonos porque tinham como finalidade formar, cultivar e povoar um território (não confundir com colonização de exploração da época dos descobrimentos da América).

Terceiro, muitas cidades no Brasil possuem contingentes significativos de estrangeiros. Foz do Iguaçu é um “case” interessante por ser considerada uma cidade de interior o país com um percentual de 5% de imigrantes em relação à sua população total. Em Curitiba, por exemplo, o percentual é de 1%. Outro fator interessante é que 80% dos estrangeiros registrados na Delegacia da Polícia Federal da cidade até o início de 2018 eram de nacionalidade paraguaia, libanesa, chinesa e argentina, respectivamente.

Por: Micael Alvino da Silva, originalmente publicado na Revista 100 Fronteiras, edição de setembro de 2019.